Tráfego para E-Commerce

Quanto investir em tráfego no e-commerce: a conta que parte da meta

7 de agosto de 202612 min de leituraPor Diego Santana
Resposta direta

A verba de tráfego não é um percentual do faturamento: é o resultado de uma conta que parte da meta de receita. Você define quanto da meta virá de mídia paga, divide pelo ticket médio para achar os pedidos necessários, divide pela taxa de conversão para achar as sessões e multiplica pelo custo por sessão do canal. O número que sai é a verba necessária. Depois disso a margem de contribuição diz se essa verba cabe: quando o custo por pedido calculado passa da margem disponível, o problema não é o tamanho da verba, é a conta.

O ERRO DE PARTIDA

Por que "invista 10% do faturamento" não é resposta

A pergunta "quanto devo investir em tráfego" quase sempre chega esperando um número pronto. Cinco por cento do faturamento. Dez por cento. O que o concorrente parece estar gastando. Todos esses atalhos têm o mesmo defeito: eles partem de um número que já existe, e não do número que você quer alcançar.

O problema é estrutural. Duas lojas podem faturar exatamente o mesmo e suportar verbas completamente diferentes, porque o que determina quanto de mídia paga a operação aguenta não é o faturamento: é a combinação de ticket médio, taxa de conversão, custo por sessão e margem de contribuição. Uma loja de ticket R$ 90 com margem de 25% e outra de ticket R$ 400 com margem de 55% vivem em planetas diferentes, mesmo faturando igual.

O percentual do faturamento não é inútil. Ele serve como conferência depois, para checar se o número que você calculou está num intervalo plausível. O que ele não pode ser é o ponto de partida.

MétodoComo funcionaOnde quebra
Percentual do faturamentoDefine a verba como uma fatia fixa do que a loja faturaIgnora ticket, conversão e margem. Serve como conferência final, nunca como ponto de partida
Espelho do concorrenteInveste o que o concorrente aparenta investirVocê não conhece a margem, o ticket nem a recompra dele. Quantidade de anúncios no ar não é verba
Verba herdada do mês anteriorRepete o valor do último mês, com um ajuste para cimaCongela a operação no passado e não responde a mudança de meta, de sazonalidade ou de custo de mídia
Cascata da metaParte da meta de receita e desce até a verba do mêsExige conhecer ticket, conversão, custo por sessão e margem, que é justamente o que precisa estar sob controle para escalar

Se você chegou aqui achando que o problema é só o tamanho da verba, vale ler antes meu tráfego não converte: página fraca ou mídia cara. Aumentar investimento sobre uma operação que não converte apenas acelera o prejuízo.

O FRAMEWORK

A Cascata da Verba: cinco passos da meta até o valor do mês

A Cascata da Verba inverte a lógica: em vez de perguntar quanto você pode gastar, ela pergunta quanto precisa ser gasto para a meta acontecer. São cinco passos, e cada um usa um número que a operação já tem.

01

Meta de receita

O número do mês, definido no planejamento. Não é desejo: é o alvo que o resto da conta precisa sustentar.

02

Participação da mídia paga

Que fatia dessa meta virá de mídia paga. O resto vem de orgânico, direto, CRM e recompra da base.

03

Pedidos necessários

Receita paga dividida pelo ticket médio. É quantas vendas a mídia precisa entregar no mês.

04

Sessões necessárias

Pedidos divididos pela taxa de conversão do tráfego pago. É o volume de visitas que a mídia precisa comprar.

05

Verba do mês

Sessões multiplicadas pelo custo por sessão do canal. É o número que você estava procurando.

Meta de receita×Participação da mídia paga=Receita a conquistar por mídia

A participação sai do realizado dos últimos 90 dias, não de uma estimativa otimista.

Receita por mídia÷Ticket médio÷Taxa de conversão×Custo por sessão=Verba do mês

Os três divisores e o multiplicador vêm todos do seu próprio histórico, canal a canal.

Um exemplo com números redondos, só para mostrar a mecânica. Meta de R$ 500 mil no mês. O histórico mostra que 60% da receita nasce de mídia paga, então a mídia precisa entregar R$ 300 mil. Com ticket médio de R$ 200, são 1.500 pedidos. Com taxa de conversão de 1,2% no tráfego pago, são 125 mil sessões. E com custo por sessão de R$ 1,20, a verba necessária é de R$ 150 mil.

Repare no que a conta já entregou de graça: o ROAS implícito dessa meta é 2,0x (R$ 300 mil de receita sobre R$ 150 mil de verba) e o custo por aquisição implícito é de R$ 100 por pedido. Você descobriu o ROAS que precisa acontecer antes de gastar o primeiro real, e não depois. Se esse ROAS estiver muito acima do que a conta entrega hoje, a meta não é impossível: ela só ainda não tem sustentação.

A cascata também deixa evidente o que dá para negociar. Cada um dos quatro números da fórmula é uma alavanca, e mexer em qualquer um deles muda a verba. É isso que separa uma decisão de investimento de um chute.

O LIMITE

O Teto de Verba: quanto a margem deixa você gastar

A cascata diz quanto é necessário. Ela não diz se cabe. Quem responde isso é a margem, e essa é a segunda conta, que muita operação nunca faz.

A margem de contribuição é o que sobra de cada pedido depois de pagar tudo que varia com a venda. Não é margem bruta, e não é lucro: é o dinheiro disponível para pagar aquisição e ainda sobrar.

Ticket médioCusto do produtoTaxas e gatewayFrete subsidiado=Margem de contribuição

Inclua também o custo de embalagem e a taxa média de reembolso ou troca, se forem relevantes na sua operação.

Margem de contribuiçãoLucro alvo por pedido=Teto de custo por aquisição

É o máximo que você pode pagar para trazer um pedido novo sem invadir o lucro planejado.

Teto de custo por aquisição×Pedidos do mês=Teto de verba

O Teto de Verba pela Margem é o máximo que a operação suporta sem transformar crescimento em prejuízo.

Seguindo o mesmo exemplo: ticket de R$ 200, custo de produto de R$ 70, taxas de R$ 12 e frete subsidiado de R$ 15. A margem de contribuição é de R$ 103 por pedido. Se você quer que cada pedido deixe R$ 30 de lucro, o teto de custo por aquisição é de R$ 73, e o teto de verba para 1.500 pedidos é de R$ 109.500.

A cascata pediu R$ 150 mil. A margem libera R$ 109,5 mil. A conta não fecha, e essa é a informação mais valiosa do exercício inteiro. Sem esses dois números lado a lado, a operação aprovaria a verba de R$ 150 mil, bateria a meta de receita e descobriria o buraco só no fechamento do mês, quando o caixa não corresponder ao faturamento comemorado.

Quando o necessário passa do teto, existem exatamente quatro saídas, e nenhuma delas é "investir mais e torcer".

O AJUSTE

Quando a conta não fecha: os quatro caminhos

A verba necessária ficou acima do teto da margem. Onde mexer?
Cenário
Caminho 1
Taxa de conversão

É a alavanca mais barata: nenhuma sessão a mais é comprada. Sair de 1,2% para 1,5% derruba a necessidade de 125 mil para 100 mil sessões e a verba para R$ 120 mil.

Caminho 2
Ticket médio

Mexe nos dois lados ao mesmo tempo: menos pedidos para a mesma receita e mais margem por pedido. Ticket de R$ 230 reduz a exigência para cerca de 1.304 pedidos.

Segundo filtro
Caminho 3
Custo por sessão

Depende de criativo, segmentação e mix de canais. Sair de R$ 1,20 para R$ 1,00 por sessão leva a verba para R$ 125 mil sem mexer em nada do site.

Caminho 4
Dependência de mídia

Reduzir a participação da mídia paga de 60% para 50% da meta tira R$ 50 mil de receita da conta da mídia e joga para CRM, recompra e orgânico.

Repare que os quatro caminhos não competem entre si: eles se somam, e é aí que mora a diferença entre o operador experiente e o novato. Um ganho de conversão de 1,2% para 1,4%, combinado com um ticket de R$ 215 e um custo por sessão de R$ 1,10, resolve o gap sem que nenhuma das três mudanças precise ser heroica isoladamente.

O caminho 4 é o mais desconfortável e costuma ser o mais estruturante. Uma operação que depende de mídia paga para 80% da receita tem o crescimento amarrado ao leilão: quando o custo de mídia sobe, o resultado cai junto, e não há verba que compense. Reduzir essa dependência é trabalho de base, de recompra e de retenção, e é justamente o driver mais barato que existe, como está detalhado em os drivers de receita do e-commerce.

E existe uma quinta saída, que é legítima e precisa ser dita: revisar a meta. Se nenhum dos quatro caminhos é viável no prazo, a meta não está calibrada para a operação que existe hoje. Ajustar o alvo é uma decisão de negócio, não uma derrota.

A ESTRUTURA

O piso de aprendizado e a divisão da verba

Ter o valor total do mês resolve metade do problema. A outra metade é como esse dinheiro é distribuído, porque verba espalhada fina demais não compra resultado: compra ruído.

Existe um piso de aprendizado. Um conjunto de anúncios precisa de conversões suficientes para que o número que ele produz signifique alguma coisa. A régua prática vem da estatística: o erro relativo de uma medição cai na proporção de um sobre a raiz do número de eventos. Com 10 conversões, a leitura carrega cerca de 32% de erro. Com 100 conversões, cerca de 10%. Abaixo de umas 30 conversões no período, você não está otimizando: está reagindo a variação aleatória.

Custo por aquisição alvo×2=Verba diária mínima por conjunto

Abaixo desse piso o conjunto não acumula conversões suficientes para ser julgado, e cortar ou escalar vira loteria.

Com custo por aquisição alvo de R$ 73, cada conjunto precisa de pelo menos R$ 146 por dia para gerar leitura. Uma verba de R$ 109 mil no mês, ou cerca de R$ 3.650 por dia, comporta em torno de 25 conjuntos com piso respeitado. Se a estrutura tiver 60 conjuntos no ar, o problema não é a verba: é a fragmentação.

A distribuição por papel, depois, segue três camadas. Elas não são iguais e não devem ser julgadas pela mesma régua.

CamadaFatia da verbaPapelComo se julga
Motor55% a 65%O que já comprova venda: produto campeão, ângulo validado, público que respondePelo custo por aquisição e pela margem em reais, não pelo ROAS isolado
Teste20% a 30%Ângulos, criativos e públicos novos que ainda não têm históricoPela taxa de aprovação: quantos testes viram motor no mês seguinte
Fundo10% a 16%Remarketing e recuperação de quem já passou pelo sitePor incremento sobre a base, com cuidado para não comprar venda que já aconteceria

Cortar a camada de teste para financiar o motor é a economia mais cara que existe no tráfego. Sem teste, o motor envelhece, o custo por sessão sobe e em dois ou três meses a operação descobre que não tem nada novo para colocar no lugar do criativo que cansou.

O TESTE

Antes de aumentar: a Nota de Prontidão para Investir

Aumentar verba amplifica o que já existe, para os dois lados. Antes de aprovar um aporte maior, vale dar uma nota à operação. A Nota de Prontidão para Investir avalia cinco condições com pesos diferentes, porque elas não valem o mesmo. Some os pontos de cada critério que sua operação cumpre: abaixo de 60 pontos, o aporte extra tende a comprar prejuízo com mais eficiência.

Mensuração confiável
Pixel e API de conversão instalados, evento de compra batendo com o backoffice dentro de uma variação aceitável
30%
Margem conhecida por produto
Você sabe a margem de contribuição de cada linha, não apenas a margem média da loja
25%
Destino que sustenta a visita
Página de produto e checkout já testados, com conversão estável nos últimos 60 dias
20%
Estoque e operação preparados
Produto campeão com cobertura de estoque e logística que aguenta o volume projetado
15%
Ritmo de criativo
Fluxo constante de peças novas entrando, para o motor não depender de um único anúncio
10%

Sinais de que a verba está sendo definida errado

  • A verba do mês foi definida antes de existir uma meta de receita escrita
  • Ninguém na operação sabe dizer qual é o custo por aquisição máximo que a margem suporta
  • O ROAS alvo foi copiado de um número de mercado, e não calculado a partir da margem da própria loja
  • A verba diária por conjunto está abaixo do piso de aprendizado, e mesmo assim se corta e escala toda semana
  • O aumento de verba é aprovado no meio do mês, sem revisar conversão, ticket e custo por sessão
  • A camada de teste foi zerada para financiar o motor em um mês difícil
  • Frete e taxas ficam de fora da conta de margem, então o custo por aquisição parece caber e não cabe
A EXECUÇÃO

O ritmo do aporte e o painel do mês

Verba nova não entra de uma vez. Plataforma de mídia reaprende a cada mudança relevante de orçamento, e um salto grande joga a campanha de volta para a fase de aprendizado, com custo por sessão pior justamente no momento em que você precisa de eficiência.

A regra prática é aumentar em torno de 20% a cada 72 horas, mexendo em uma variável por vez. Se você subir a verba, trocar o criativo e abrir um público novo no mesmo dia, o resultado da semana não terá dono: não dá para saber o que funcionou. O ritmo lento parece conservador, mas chega mais longe, e o raciocínio completo sobre isso está em como escalar um e-commerce sem quebrar a margem.

No fim do mês, a conta se refaz com o realizado. É esse ciclo que transforma a verba de aposta em decisão.

O painel que fecha o mês de tráfego

  • Receita realizada por canal contra a meta do mês
  • Participação real da mídia paga na receita total
  • Ticket médio realizado contra o ticket usado na cascata
  • Taxa de conversão do tráfego pago, separada do tráfego total
  • Custo por sessão realizado, canal a canal
  • Custo por aquisição realizado contra o teto da margem
  • Margem de contribuição em reais, não só o ROAS
  • Fatia efetiva de motor, teste e fundo na verba gasta
  • Quantos conjuntos ficaram abaixo do piso de aprendizado
  • Quantos testes do mês viraram motor no mês seguinte

Quando esses dez números existem e são revisados todo mês, a pergunta "quanto investir em tráfego" para de ser uma discussão de opinião e vira uma conta com resposta. E a resposta muda todo mês, porque a operação muda. Isso é normal, e é o sinal de que o processo está funcionando.

Para o quadro completo de como mídia paga se encaixa no crescimento da loja, o ponto de partida é tráfego para e-commerce.

FAQ

Perguntas frequentes

Qual percentual do faturamento devo investir em tráfego?+
Não existe percentual correto, porque ele depende de ticket, conversão e margem, que variam muito entre operações. O caminho é calcular a verba pela cascata (meta de receita, participação da mídia paga, ticket, conversão e custo por sessão) e usar o percentual apenas como conferência final, para ver se o número calculado está num intervalo plausível para o seu segmento.
Como sei se a verba que calculei cabe na minha margem?+
Compare o custo por aquisição implícito da conta com a sua margem de contribuição por pedido. Divida a verba calculada pelos pedidos necessários para achar o custo por aquisição, e depois subtraia da margem de contribuição o lucro que você quer por pedido: se o custo por aquisição implícito for maior que esse valor, a verba não cabe e alguma das alavancas precisa mudar antes.
Qual é a verba mínima para começar a anunciar com resultado?+
A verba mínima é definida pelo piso de aprendizado, não por um valor fixo de mercado. Cada conjunto de anúncios precisa de aproximadamente duas vezes o custo por aquisição alvo por dia para acumular conversões suficientes e permitir leitura, então uma operação com custo por aquisição alvo de R$ 70 precisa de pelo menos R$ 140 diários por conjunto ativo.
Posso aumentar a verba no meio do mês?+
Pode, desde que o aumento seja gradual e uma variável por vez. Saltos grandes de orçamento jogam a campanha de volta para a fase de aprendizado e pioram o custo por sessão logo quando você mais precisa de eficiência, então a régua prática é subir em torno de 20% a cada 72 horas e observar o custo por aquisição antes do próximo passo.
Quanto da verba deve ir para remarketing?+
Em torno de 10% a 16% da verba total, na camada de fundo. Remarketing tem ROAS alto por natureza, porque fala com quem já demonstrou interesse, e por isso ele engana quando julgado pelo mesmo critério da prospecção: o que importa nessa camada é o incremento real sobre o que já aconteceria sem o anúncio, não o número bonito do relatório.

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